Como diria Sócrates, ou como deveríamos dizer: só sei que nada sei. Talvez melhor ainda seria dizer que o que sabemos será sempre insuficiente.

Temos assistido a discussões acaloradas sobre a importância e relevância dos conteúdos e do quanto a Escola não está conseguindo dar conta do desafio que se tornou a Educação em nossa sociedade.

De um lado a queixa de que estamos descuidando das questões objetivas, de proporcionar o desenvolvimento de habilidades específicas que possam capacitar o aluno a disputar o seu lugar no “mercado de trabalho”, de outro aqueles que defendem o papel da escola como espaço de socialização, e nestes me incluo pedindo socorro a Rubem Alves, que propõe a Educação como processo de ensinar a sermos Humanos.

É comum sermos questionados por pais sobre o que estamos “ensinando” a seus filhos, pois querem ver “cadernos” com “materias”, exercícios e atividades materializadas para que possam assim perceber o progresso e a eficácia da atividade pedagógica. O ensino dirigido ao vestibular, como única porta de acesso a uma melhor condição de vida, apequenou a escola, tecnicizou-a, desumanizou-a enfim. E o que mais deveria querer a Educação que não o processo de humanizar o ser que nasce – concordando com Hobbes, em estado de natureza?

É certo que a qualificação é fator importante, mas não existe qualquer apuramento técnico ou tecnológico que possa substituir o aprimoramento do ser enquanto indivíduo participante e consciente de seu papel, de sua responsabilidade, de sua tarefa na construção de uma sociedade viável e humana.

Uma escola que fique reduzida a estas questões técnicas e pragmáticas fica a serviço de interesses outros que não a Educação e, obviamente, deixa de educar.

Inúmeros são os fatores que ocasionaram o momento que estamos vivendo. A reformulação dos arranjos familiares, sem entrarmos na discussão das formas de produção de bens e serviços, talvez seja o que mais impacto causou. Não seria plausível, nem desejável, é bom que se diga, que voltássemos a um modelo patriarcal onde a mulher tinha suas opções reduzidas e um papel coadjuvante, passivo até, pois as atividades econômicas acabavam sendo tarefa exclusiva do homem. Entretanto, continuamos organizados como se ainda estivéssemos sob o antigo modelo de agrupamento familiar. O resultado é que o espaço de convivência reduziu-se a um mínimo, quando existente.

As demandas de viabilização econômico/financeiras, dado a competição, dado o consumo como padrão de resultado e excelência, cresceram na inversa medida em que este espaço se reduziu. Neste modelo, onde a criança é constantemente assediada como consumidora e desrespeitada como ser em formação, não existe o espaço para o desenvolvimento do processo pedagógico. Nossa escola é assim o resultado de uma despriorização aburda do ser como humano numa sociedade onde as estruturas preocupam-se apenas em torná-lo mão de obra e onde alguns, a duras penas, conseguem tornar-se consumidores de uma infindável cadeia de interesses que, no lugar de serem meios de satisfação de necessidades, tornaram-se fim em si mesmos.

Neste cenário, em que a pressão por enquadrar-se da melhor forma na cadeia de consumição, é compreensível que a escola seja alvo da pressão por instrumentalizar  prioritariamente o aluno no lugar de criar as condições para o pleno desenvolvimento de um ser sociável e por isso cidadão e a partir daí capaz de buscar e construir o seu lugar no mundo.

A solução para a mudança, não está escondida em uma poderosa mente, nem nas iniciativas louváveis, mas insuficientes, de lideranças e governos. É necessário, para que isto seja possível, que primeiro tenhamos consciência de que não estamos construindo a consciência onde a Educação seja prioridade máxima para a humanidade. E vale ressaltar que  a mais espetacular descoberta técnico/científica não terá nenhum valor e sentido se não tiver como objetivo o humano e sua felicidade. Fabricar coisas, por melhores que sejam, sem a menor preocupação com quem vai consumi-las, acaba sendo apenas um negócio, não a satisfação consequente de necessidades. O que pode a Escola nesta cenário, uma vez que ela se constitui e é fruto deste estado de consciência e dos seres sujeitos (ou sujeitados) a ele?

Quem se julga sabedor, no mínimo deixa de saber mais. Quem se reconhece ignorante, abre espaço para novas descobertas.

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