Essa tal de Ética.
29 de Março de 2007Que motivo teria, um esperto adicto da “Lei de Gerson” para não agir de modo lesivo e deletério a outrem, se tivesse a mais plena certeza de que seu ato, de forma alguma, seria revelado ou descoberto?
Penso, nenhuma!
E por que? Porque a Ética não se constrói, diversamente do modo como pensam os metafísicos e platônicos idealistas, a sós. A Ética prescinde, de forma categórica, de pelo menos dois entes entre os quais se estabeleça uma relação de algum modo, ou de alguma parte, intencionais e conscientes. Sós, estaríamos comprometidos com nossa necessidade atávica de sobreviver. Em um estado de solidão, de fato, existencial, o que, convenhamos é uma idealização apenas hipotética, sobraria muito pouco de nossa humanidade, no sentido das regras e hábitos de convivência, talvez origem da Ética, que pudesse justificar o sacrifício por uma idéia, a de não lesar alguém (quem, na solidão?), se a necessidade fosse o móvel e incentivo à satisfação de um desejo, da vontade, da própria necessidade.
Defenderão, aqueles que acreditam num mundo ideal, acima das realidades, conseqüências e possibilidades mundanas, que existe um “Bem” que está posto desde sempre e que os justos, nobres e elevados seriam aqueles capazes de acessá-los e cujos julgamentos e escolhas, constitutivas do seu conjunto ético, seriam outra coisa senão o resultado deste repertório, deste ramalhete de bons princípios, garantidores do “Bem”.
É de notar a admirável capacidade de nossa espécie em construir ferramentas e recursos, que vêm nos proporcionando uma sobrevivência visivelmente vantajosa, até demais, diria, eis que já se avizinha à perigosa demasia, e de tal sorte eficaz que tem afastado inequivocamente a sua extinção, o que não se observa em relação às outras espécies.
Ainda, como caminho de raciocínio, queria destacar algumas idéias, para, a maneira de um “mateiro” abrir brechas em nosso cipoal de conceitos: o que seria o chamado instinto de sobrevivência? Talvez o medo da dor, e esta um potente mecanismo capaz de preservar e prevenir a exposição aos perigos de qualquer sorte. Este mecanismo, longamente aperfeiçoado pelos diversos desafios do existir e viver, frente não somente às intempéries, às outras espécies, e principalmente aos outros indivíduos da própria espécie, sofisticou-se de tal sorte, que em desdobramentos e sutilezas inúmeras, mimetizou-se de tal sorte, revestindo-se de tantas roupagens, formas e artifícios, que já é tênue e quase invisível, o fio indelével que o liga ao essencial: sobreviver.
Sim, pois simplesmente não desfecho um golpe fatal na cabeça do sujeito, que tranqüilo assiste ao mesmo filme que eu, mas que devido à sua indesejável estatura e postura, me obstaculiza a visão confortável da tela, apenas porque temo as conseqüências de meus atos e fui condicionado ao longo da existência, que mais vantagens teria em acomodar-me ou adaptar-me de alguma forma à situação, do que resolvê-la voluntária e soberanamente em concordância exclusiva a meus interesses.
Assim, desde o nascimento, aprendemos a negociar, a ceder para ganhar, a barganhar, a contemporizar, a trocar, enfim a desviar tanto quanto possível do confronto a menos que tenhamos a certeza de que ele nos será vantajoso.
Ah…, mas existem os bons, dirão alguns.
Ah…, mas existem os justos, dirão outros.
Ah…, mas estes são os mais capazes e eficazes, eu diria, pois aperfeiçoaram de tal modo sua capacidade de contornar o conflito, pela prática sincera e justa de buscar o caminho menos dolorido, uma vez que a ausência completa de dor, no caso a cedência completa à vontade do outro, é de todo impossível. E isto é que nos tem garantido a sobrevivência, desde as formas mais rudimentares de mutualismo, até os intrincados e complexos mecanismos de solidariedade, fruto se não da própria capacidade de antever no “sistema” uma forma de autobeneficiamento.
E, ainda para aqueles que acreditam na existência de um “Bem”, pairando acima destas realidades e vicissitudes comesinas, ficaria a pergunta: Que Bem seria tão universal a ponto de contemplar, tanto o bem que me importa, como o bem que importa a quem depende de minha morte? Essa idéia, a de um “Bem”, seria, salvo melhor juízo, apenas mais um de nossos eficientes mecanismos, refinadamente construídos em nosso arsenal de recursos de sobrevivência.
Assim, voltando a nossa pergunta inicial, o esperto adicto a “lei de Gerson” nada teria que o impedisse de agir de forma deletéria a outros e em proveito próprio. Nós é que teríamos as nossas razões e assim construímos um “sistema” capaz de montar esse rico arsenal de regras e limites, de acordos explícitos e tácitos, tudo na perspectiva e esperança de que não sejamos nós os lesados.