• Artesania da Palavra

    Artesania da Palavra
    por João Paulo da Silveira
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  • Essa tal de Ética.

    29 de Março de 2007

    Que motivo teria, um esperto adicto da “Lei de Gerson” para não agir de modo lesivo e deletério a outrem, se tivesse a mais plena certeza de que seu ato, de forma alguma, seria revelado ou descoberto?

    Penso, nenhuma!

    E por que? Porque a Ética não se constrói, diversamente do modo como pensam os metafísicos e platônicos idealistas, a sós.  A Ética prescinde, de forma categórica, de pelo menos dois entes entre os quais se estabeleça uma relação de algum modo, ou de alguma parte, intencionais e conscientes. Sós, estaríamos comprometidos com nossa necessidade atávica de sobreviver. Em um estado de solidão, de fato, existencial, o que, convenhamos é uma idealização apenas hipotética, sobraria muito pouco de nossa humanidade, no sentido das regras e hábitos de convivência, talvez origem da Ética, que pudesse justificar o sacrifício por uma idéia, a de não lesar alguém (quem, na solidão?), se a necessidade fosse o móvel e incentivo à satisfação de um desejo, da vontade, da própria necessidade.

    Defenderão, aqueles que acreditam num mundo ideal, acima das realidades, conseqüências e possibilidades mundanas, que existe um “Bem” que está posto desde sempre e que os justos, nobres e elevados seriam aqueles capazes de acessá-los e cujos julgamentos e escolhas, constitutivas do seu conjunto ético, seriam outra coisa senão o resultado deste repertório, deste ramalhete de bons princípios, garantidores do “Bem”.

    É de notar a admirável capacidade de nossa espécie em construir ferramentas e recursos, que vêm nos proporcionando uma sobrevivência visivelmente vantajosa, até demais, diria, eis que já se avizinha à perigosa demasia, e de tal sorte eficaz que tem afastado inequivocamente a sua extinção, o que não se observa em relação às outras espécies.

    Ainda, como caminho de raciocínio, queria destacar algumas idéias, para, a maneira de um “mateiro” abrir brechas em nosso cipoal de conceitos: o que seria o chamado instinto de sobrevivência? Talvez o medo da dor, e esta um potente mecanismo capaz de preservar e prevenir a exposição aos perigos de qualquer sorte.  Este mecanismo, longamente aperfeiçoado pelos diversos desafios do existir e viver, frente não somente às intempéries, às outras espécies, e principalmente aos outros indivíduos da própria espécie, sofisticou-se de tal sorte, que em desdobramentos e sutilezas inúmeras, mimetizou-se de tal sorte, revestindo-se de tantas roupagens, formas e  artifícios, que já é tênue e quase invisível, o fio indelével que o liga ao essencial: sobreviver.

    Sim, pois simplesmente não desfecho um golpe fatal na cabeça do sujeito, que tranqüilo assiste ao mesmo filme que eu, mas que devido à sua indesejável estatura e postura, me obstaculiza a visão confortável da tela, apenas porque temo as conseqüências de meus atos e fui condicionado ao longo da existência, que mais vantagens teria em acomodar-me ou adaptar-me de alguma forma à situação, do que resolvê-la voluntária e soberanamente em concordância exclusiva a meus interesses.

    Assim, desde o nascimento, aprendemos a negociar, a ceder para ganhar, a barganhar, a contemporizar, a trocar, enfim a desviar tanto quanto possível do confronto a menos que tenhamos a certeza de que ele nos será vantajoso.

    Ah…, mas existem os bons, dirão alguns.

    Ah…, mas existem os justos, dirão outros.

    Ah…, mas estes são os mais capazes e eficazes, eu diria, pois aperfeiçoaram de tal modo sua capacidade de contornar o conflito, pela prática sincera e justa de buscar o caminho menos dolorido, uma vez que a ausência completa de dor, no caso a cedência completa à vontade do outro, é de todo impossível. E isto é que nos tem garantido a sobrevivência, desde as formas mais rudimentares de mutualismo, até os intrincados e complexos mecanismos de solidariedade, fruto se não da própria capacidade de antever no “sistema” uma forma de autobeneficiamento.

    E, ainda para aqueles que acreditam na existência de um “Bem”, pairando acima destas realidades e vicissitudes comesinas, ficaria a pergunta: Que Bem seria tão universal a ponto de contemplar, tanto o bem que me importa, como o bem que importa a quem depende de minha morte? Essa idéia, a de um “Bem”, seria, salvo melhor juízo, apenas mais um de nossos eficientes mecanismos, refinadamente construídos em nosso arsenal de recursos de sobrevivência.

    Assim, voltando a nossa pergunta inicial, o esperto adicto a “lei de Gerson” nada teria que o impedisse de agir de forma deletéria a outros e em proveito próprio. Nós é que teríamos as nossas razões e assim construímos um “sistema” capaz de montar esse rico arsenal de regras e limites, de acordos explícitos e tácitos, tudo na perspectiva e esperança de que não sejamos nós os lesados.

    Por que perdemos nossos filhos?

    12 de Fevereiro de 2007

    Estamos completamente atônitos, perdidos, desnorteados com os rumos da sociedade que criamos (ou que no mínimo concordamos em fazer parte).

    Em qualquer sociedade, por melhor estruturada que seja, vai haver o delinquente, mas não podemos pensar que o que acontece hoje seja esta parcela esperada e até prevista de delinquência. Estamos com todos as instituições doentes, purgando corrupção, procrastinação, inércia e desânimo pois existe um sentimento geral por parte daqueles que ainda tem consciência de que a luta é quase perdida.

    Os pais, são sim os criadores e geradores deste tipo de pessoas que esta sociedade produz, pois são os pais que a mantém ou por sua inconsciência ou por sua acomodação ou até mesmo pela aderência aos valores desta sociedade.

    Portanto, o atual estado de demência não é fruto apenas “do governo” ou das “autoridades”. É fruto da inconsciência e da acomodação de todos nós aos valores que este tipo de sociedade produz.

    Quando um profissional de educação é remunerado do jeito que é em nosso sociedade, que tipo de educação se espera dele? Por mais amor que tenha ao seu trabalho, não é possível que ele possa se aperfeiçoar profissionalmente com dignidade, que ele possa servir de exemplo de sucesso, de caminho a ser seguido.

    Então, os nossos parâmetros de sucesso são aqueles glamurizados pelos meios de comunicação, aqueles são fetichizados como exemplo de “sucesso”.

    Quem quer ser uma pessoa de bem? Talvez alguns, com alguma educação capaz de lhe proporcionar consciência. A grande maioria vai querer ter SUCESSO, independentemente do que seja ou de como se o alcance e que preferencialmente esse sucesso lhe garanta a aquisição de qualquer quinquilharia que o progresso chama de bens e serviços.

    Mas infelizmente, como disse Brecht o pior analfabeto é o analfabeto político, pois não sabe que com sua ignorância permite que se construa uma sociedade com valores degradados.

    Então, quando vejo discursos inflamados de indignação moral e social, fico me perguntando o que é que pretendem esses discursos? Será que têm consciência do que realmente deve ser mudado para que alguma coisa mude de fato? Será que quando elegemos e fizemos nossas escolhas nas urnas, na vida comunitária, nas nossas relações pessoais, estamos conscientes do tipo de sociedade que queremos de fato?

    Este me parece ser o maior problema. E, que comecem as pedradas, infelizmente é a classe média que não vive as REAIS agruras que esta sociedade que construímos produz, quem mais grita, mas quem menos faz para mudá-la, pois só consegue perceber o tamanho da doença quando ocorrem fatos incontestáveis como o do menino arrastado. Na maioria das vezes, está conformada com seu apartamentinho, seu carrinho, suas férias anuais, com sua atividadesinha comercial(emprego ou qualquer forma de viabilidade econômica), porque de alguma forma eles lhe permitem a dignidade que é negada a esmagadora maioria que eles não vêem a não ser nos sinais, nas cozinhas de suas casas, nas manchetes dos jornais…

    Porque perdemos nossos filhos?
    Porque nos perdemos… e, pior do que isso, nem sabemos que estamos completamente perdidos neste emaranhado de valores que não privilegiam o ser humano mas apenas as conveniências do mercado.

    Quem tu pensas que és?

    26 de Agosto de 2006

    Senhor sábio.

    Não me intimida com tua notável coleção de argumentos, fruto de tua prodigiosa e dedicada artesania em acumular os saberes e as teses alheias!

    Não me oprimas com tua prepotência, com tuas engenhosas certezas, brandindo teu ramalhete de argumentos “sérios”, que enfim não passam das teses e visões que outros tateantes perseguidores do saber ousaram um dia enunciar, pois este gesto não passa de insegurança e covardia em apresentar tuas próprias, pois as reconhece tão frágeis e tênues que sabes não se sustentarem por si mesmas.

    Enfim, não fosse a tenra, destemida e corajosa ingenuidade, livre dos ranços e certezas ousar enunciar um novo caminho, quem sabe os avanços seriam apenas o repetir e acumular do que se pensa irredutível, irretocável e certo, mas podem não passar de coleções museológicas que sedimentam e ordenam o passado, mas não garantem o avanço criativo e produtor de novos horizontes e possibilidades.

    Não tenho vergonha de minha ignorância, pois ela é somente o fruto de admitir que não sei, para poder saber mais. Não me intimido com os horizontes postos, pois eles apontam para onde posso ir além. Quero voar por cima das muralhas que, nas tuas certezas, te encontras aprisionado. E não haverá bagagem, por mais qualificada que seja, que me pesará sobre as asas, pois estas, as asas de minha coragem e destemor, é que me elevarão onde tu, não ousas admitir poder chegar.

    Fica, senhor sábio e douto, com teus fantasmas a atestar tuas frágeis e definitivas certezas. Prefiro o frescor dos rebentos novos. que minhas provisórias convicções possibilitam permitir nascer.

    Consumidor é a …

    25 de Agosto de 2006

    Quem disse que quero ser consumidor?

    Quero ser apenas um ser, preferencialmente humano. Não aceito a pecha de consumidor, contribuinte, ou na contramão, sonegador e outros rótulos.

    O tal de “mercado” com suas perfumadas mãos, como diz meu amigo Scharlau, pensa que tudo são mercadorias e nessa lógica quer que nos movamos. Não sou consumidor, pois isso me soa como se fosse um esgoto onde se desagua toda e qualquer quinquilharia como os apitos, colares e espelhos com que os colonizadores engambelavam nossos antepassados.

    Tenho gostos, escolhas, decisões e necessidades que não obedecem à lógica do lucro e da produção massificada. Minha estética não é a do momento, nem de qualquer momento. Minha estética é a que me satisfaz. Minhas necessidades são maiores que as conveniências das economias em escala. Meus sonhos não são de consumo, são de fruição.

    O que é que aconteceu com nossos critérios, com nossa subserviência à lógica da obsolescência programada, dos haveres sem que os seres sejam?

    Ora, consumidora é a…

    Há tempos

    17 de Julho de 2006

    Que ninguém me fale sobre o tempo, pois nada mais estúpido e covarde do que alegar chuva, se não ocorrem luzes pra iluminar a estultice.

    Ontem assoviava uma canção, enquanto distraia o sono, esperando as cancelas se fecharem sobre o meu cansaço. Os sonhos que sonhei, acordando as manhas e as manhãs, nos apuros e nos negócios que me tocam e ocupam: Filhos. la plata, a fome, todas as fomes, principalmente as fomes de um amanhã, ou ainda, pelo menos, a esperança de um, esmaecem como vontades perdidas.
    Ontem, roía bolachas marias, esperando minha mãe distrair o tédio no seu rádio Phillips antevendo os romances de capa e espada movidos a voz e imaginação. Deliciava-me nas tardes, aquelas doses homeopáticas de simplicidade romântica, de previsibilidade consentida, de ouvintes e falantes das histórias enjambradas na inocência de antes.

    Ontem conhecia a Ieda Maria Vargas - pretendia conhecê-la no sentido bíblico - mas como era bonito o maiô, que sublinhava o seu triângulo púbico e que prometia mundos que a minha cama e meu banheiro vislumbravam com minúcias adivinhadas, suspeitadas, inventadas, com certezas incontestes de que a vida vai ser sempre assim, se não é ainda, ainda vai ser.

    Ontem eu via a Rosinha, e quando ela estourava bem perto sua bola de clichete, podia sentir o perfume tuti-fruti que me enchia de vontades. Mas entre o negro daqueles olhos dela e a exorbitância das rótulas esfoladas e salientes se delineava a namorada que eu sonhara.

    Ah… Rosinha, quantas horas me desenhei no espelho, só para ti, mas quando a ti apresentava a minha arte final só conseguias me fazer sentir um envergonhado rascunho.

    Ontem pensava possível pular os muros que cercavam minha suburbana condição e construir mil possibilidades tocadas a sonho e ilusões. Mas fui ganhando kilos e perdendo fios de cabelos na proporção inversa em que a inocência sumia.

    Hoje contando estórias para os meus filhos, das lembranças, das memórias, que povoam carinhosas os meus devaneios, me pego devasso escarnecendo dos meus amores de antanho. Foi longo o trajeto, a viagem, a construção em sentido contrário ao lucro das changas que amealhei pelas estradas, de um sentido que tivesse sentido.

    Que lástima! Talvez tenha contraído uma doença de trabalho, do trabalho de viver.

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